17 julho 2008

O fim do mundo

Já se deu conta que podemos estar à beira de um evento cataclísmico do tipo "fim-do-mundo-tal-como-o-conhecemos-e-possível-extinção-da-espécie-humana"? Ainda não? Pois é, as poucas pessoas com acesso a essa informação não o publicitam para que o resto de nós continue a viver as suas vidinhas mantendo o status quo dos 10% da população que controlam 90% da riqueza mundial.
Estou a falar de um problema que nos afecta a todos directamente enquanto sociedade e enquanto indivíduos. Um problema que afecta o nosso poder de compra, que afecta os próprios bens à nossa disposição, desde o copo de leite que bebemos de manhã até ao perfume que borrifamos antes de sair de casa passando pelo carro que conduzimos para ir para o trabalho, a roupa que vestimos, os livros escolares que compramos para os nossos filhos e todo um sem fim de produtos que damos por garantidos sem pensar na sua proveniência.
Imagine uma situação hipotética: Uma certa manhã acorda para ir para o trabalho mas não tem combustível no carro. Não faz mal, pensa, vai de transporte público. Ao chegar à paragem do autocarro percebe que este também não vai passar e começa a preocupar-se. Ouve então na rádio que há uma crise com os recursos energéticos causada por uma diminuição na produção de petróleo. Pensa mais uma vez como fará para chegar a horas ao trabalho e decide ir de metro uma vez que este tipo de transporte não utiliza combustíveis fósseis mas sim electricidade. Ao chegar ao metro depara-se com o mesmo problema, as carruagens estão paradas porque também a produção de electricidade requer combustíveis fósseis. Com os transportes públicos fora de serviço decide voltar para casa. Em situação idêntica encontram-se muitas outras pessoas que não conseguiram chegar ao trabalho causando um prejuízo de milhões para a economia global. No caminho (a pé) para casa continua a ouvir a rádio e sintoniza uma declaração do Sr. Primeiro Ministro que nos assegura que a produção de petróleo apenas sofreu uma baixa de 2% devido ao custo de exploração deste recurso mas que o petróleo ainda vai durar por muitas décadas. No entanto, o governo já delineou medidas para minimizar a dependência do nosso país dos combustíveis fósseis apostando nas energias renováveis. O Sr. Primeiro Ministro continua a explicar como vai ser implementada a mudança de política passando a usar-se biocombustível para os transportes, paineis solares em todas as habitações, energia eólica, e outras medidas que irão balançar o aumento do preço dos combustíveis fósseis devido à sua escassez. É neste ponto que vou interromper esta situação hipotética para fazer uma comparação com a realidade. Não aumentou significativamente o preço dos combustíveis fósseis nos últimos anos? Não tem havido investimento nas energias renováveis, não só no nosso país mas também em muitos países desenvolvidos? Que estamos a viver uma crise energética disso ninguém duvida, mas até aqui tem sido apresentada como uma situação passageira. Será que afinal a escassez de petróleo é mesmo real e já está a acontecer actualmente? Muitos peritos acreditam que sim e é inacreditável que a sociadede global, na era da informação, ainda não tenha sido alertada.
Sabe-se que existem actualmente jazigas de petróleo que durarão por várias décadas mas e algumas ainda poderão estar por descobrir. Contudo, como é lógico de concluir, os recursos que estão hoje em dia a serem extraídos são os de acesso mais díficil, encarecendo todo o processo de extracção e também o produto final. Não é difícil de perceber que os depósitos de acesso mais fácil foram os primeiros a serem esgotados e que os depósitos ainda por descobrir são logicamente de difícil acesso, caso contrário, numa era de satélites e sondas especializadas na detecção destes recursos, teriam já sido localizados. Podemos então esperar que o preço dos combustíveis continue a subir em virtude do custo da sua extracção.
Sabe-se também que o petroléo é um recurso finito e portanto sujeito a um fenómeno conhecido como o "pico do petróleo" que significa que este recurso não irá acabar repentinamente mas sim diminuir gradualmente por várias décadas até que a sua produção seja nula. Baseando-nos nas leis de mercado, podemos esperar que ao diminuir a oferta suba gradualmente o preço dos combustíveis. Alguns peritos afirmam que já ultrapassamos o pico de produção de petróleo pelo que já nos encontramos na curva descendente o que explicaria o constante aumento dos preços que se tem verificado nos últimos anos.
Inversamente à quebra na produção de recursos fósseis, vivemos numa sociedade que, para se manter estável, requer sucessivamente mais combustíveis do que a quantidade utilizada em igual periodo anterior. Isto significa que num determinado ano o consumo de recursos fósseis deverá ser superior ao ano anterior para que não haja recessão. Ainda que fossemos capazes de estabilizar o consumo não seriamos capazes de manter uma economia estável.
Vivemos pois numa sociedade que para se manter estável requer um consumo crecente de combustíveis mas está perante uma na produção decrescente dos mesmos. Então, como afirmava o Sr. Primeiro Ministro na situação hipotética anterior, há que dirigir os nossos esforços para as alternativas mais ecológicas e renováveis de produção de energia. Mas até aqui se apresentam sérias dificuldades. Imagine que pretendíamos substituir a gasolina por biodíesel. Este combustível ecológico, normalmente de origem vegetal, requer que sejam cultivadas as plantas de onde será depois extraído o óleo usado na produção de combustível. O problema reside no facto de que para substituir os milhões de litros de combustivel convencional utilizados diariamente, teriamos que abandonar toda a agricultura e passar a cultivar apenas as plantas produtoras dos óleos percursores do biodiesel. Ora isso não pode ser pela razão óbvia de que morrerríamos todos à fome para podermos andar de carro.
Ainda assim resta-nos a alternativa dos paineis solares e parques eólicos. Mas como já devem estar a suspeitar, também estas alternativas apresentam um grave problema. Para produzir um painel solar é necessário gastar petróleo. Se, como parece ser real, estamos agora a começar a sentir os efeitos da escassez de combustíveis e a população ainda nem se deu conta disso, então é de esperar que os governos só iniciem realmente a essencial reconversão energética quando forem politicamente forçados a isso, o que poderá ser tarde de mais. É que substituir milhões de motores de carros, fábricas, e lares bem como todas as infraestrututras associadas, não seria fácil se fosse hoje, mas será totalmente impossível quando os recursos energéticos existentes forem uma fracção do que temos actualmente.
Mas afinal o que é que vai mudar? E a resposta é: toda a nossa sociedade. Sem petróleo, numa agricultura cada vez mais industrializada para suportar as necessidades crescentes, o tractor que produz os nossos alimentos não funciona. Sem petróleo, produtos e bens não podem ser distribuídos. Sem petróleo não podemos deslocar-nos diariamente para ir trabalhar. Enfim, todos os ramos da actividade humana serão influenciados, medicina, defesa nacional, educação e tudo o mais que consiga imaginar é, actualmente, dependente dos combustíveis fósseis.
Dá que pensar? Quer saber mais? Visite o "link": http://www.lifeaftertheoilcrash.net/

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