31 agosto 2007

Milho verde, milho verde

Já bastante se falou no acto ecoterrorista que ocorreu no Algarve no passado dia 17, na Herdade da Lameira, contra um campo de cultivo de milho transgénico. Falaram os dirigentes partidários, falaram as altas patentes da GNR, falaram os meios de comunicação social e falaram as organizações ambientalistas. Discutiram-se responsabilidades e a falta delas, discutiram-se os direitos do consumidor, discutiram-se Lei e Constituição, discutiu-se o sexo dos anjos e lavou-se muita roupa suja.
Como já é hábito neste nosso país à beira mar plantado que apetece chamar de república das bananas (ou talvez das maçarocas), fez-se mais um episódio de novela em altura que política e futebol, estéreis de assunto, não preenchiam as quotas mínimas no tempo de antena nacional.
Políticas à parte, quero falar no verdadeiro motivo que esteve na génese de tanta discussão. No verdadeiro assunto que levou uma centena de homens a agirem de cara tapada e nas barbas da GNR, destruindo o trabalho árduo de um pequeno produtor agrícola. Quero falar nos organismos geneticamente modificados (OGM) ou, neste caso, organimos transgénicos. E quero falar neste assunto porque me parece que apesar de tanta discussão ainda não se explicou convenientemente o que são os transgénicos.
A mim, parecer-me-ia natural que quando alguém se insurgisse contra algo com os argumentos de que esse algo é prejudicial para o Homem e para o ambiente, que a discussão se centrasse em torno desse prejuízo para o Homem e para o ambiente. Ao invés, fala-se de política e da acção da GNR.
Os OGM são organismos alterados em laboratório através da manipulação dos seus genes. Os transgénicos incluem-se nesta classificação com a particularidade de lhes ter sido introduzido um ou mais genes de uma espécie diferente da sua. Pretende-se com esta manipulação conferir ao organismo receptor características consideradas vantajosas, possuídas pelo dador dos genes. No caso do milho é frequente introduzir genes que conferem à planta resistências contra insectos que atacam as culturas ou herbicidas utilizados para controlar o desenvolvimento de ervas daninhas. O milho fica assim protegido das pragas e torna-se mais rentável para o produtor.
Os OGM são actualmente um dos campos de batalha preferidos pelas associações ambientalistas que alegam perigos potencialmente catastróficos para a saúde pública e para o ambiente. A verdade é bem menos assustadora e entristece-me ver as associações ambientalistas a representarem o lobo na pele do cordeiro. Estas associações deveriam fomentar a educação sobre os assuntos do ambiente e não instigar o medo entre as pessoas pessoas menos esclarecidas com desinformação e acções de terrorismo.
Quando olhada com um olhar imparcial, a realidade acerca dos transgénicos é bem mais simples e tranquilizadora. Um gene não passa de uma sequência de material genético que encerra em si as instruções para produzir, nada mais nada menos, que uma proteína. Assim, isolar e transferir um gene de um organismo para outro não acarreta nenhuma outra consequência que não seja a produção, por parte do organismo receptor, de proteínas que anteriormente não produzia. Antes de chegar ao mercado, os efeitos relativos ao consumo desse OGM na saúde pública são amplamente estudados. De facto, existem actualmente inúmeros OGM que são produzidos e consumidos sem que algum mal tenha daí originado.
O perigo para o ambiente é algo que também é proclamado pelos ambientalistas devendo sem dúvida ser (e efectivamente é) levado em consideração pelos investigadores e entidades reguladoras. Ao alterar o património genético das plantas e cultivando apenas aquelas que mais lhe interessam, o Homem corre o risco de, um dia, ficar dependente de um restrito número de variedades vegetais excessivamente adaptadas a ambientes específicos e incapazes de sobreviver perante uma inesperada mudança do ambiente. Curiosamente, o homem tem vindo a tomar esta atitude de selecção desde o período Neolítico quando se sedentarizou e desenvolveu a agricultura. Não fosse essa intensa selecção dos organismos que lhe são mais úteis em detrimento dos outros, ainda hoje cultivariamos as espécies selvagens pouco produtivas em vez das fecundas e fortes variedades domésticas. Além disso, como precaução para o futuro, existem bancos de sementes e germoplasma onde se preservam as variedades selvagens do perigo de extinção.
Por tudo isto sinto-me desapontado. Sinto-me desapontado com a falta de informação numa sociedade onde só não lhe tem acesso quem assim escolhe permanecer desinformado. Sinto-me desapontado com as entidade responsáveis que activamente escolhem desinformar. Sinto-me desapontado por os nossos governantes, perante uma oportunidade de fomentar a informação, escolherem fazer política.

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