Sentei-me em frente ao computador, liguei-o e estalei os dedos preparandos-os (em vão) para dar corpo ao texto que fluia já na minha mente. O assunto, o calendário festivo que se aproxima a passos largos, o Natal. Sem me dar conta disso, era observado por um par de olhos ávidos atrás dos respectivos óculos. Num ápice perdi a posse do rato, seguiu-se o teclado e por fim, com um empurrão certeiro, fui despejado do meu lugar frente ao computador. Tornei-me eu o observador enquanto o amigo usurpador, como que possuído por alguma entidade demoníaca, debitava frases no écran a uma velocidade vertiginosa. Em poucos instantes surgiu o texto. O assunto era o mesmo mas a escolha das palavras não era, de todo, a imaginada inicialmente. E eis o resultado, que pelo dever que une os amigos leais (e o receio de represálias) passo a apresentar.
"Chega-nos mais um Natal. Enfeitam-se as montras, iluminam-se as ruas e chega a altura de gastar o que se tem e o que se não tem para poder dizer: eu ofereci um presente porque gosto de ti, (mas gosto mais de receber do que dar). Mas quem pensou nos presentes ao longo do ano? Quem os foi comprar na semana anterior ao Natal? Quem comprou um presente para poder exigir outro em troca? E quem entra numa loja e diz: quero algo até 5 euros, não interessa o quê, pode ser qualquer merda. E agarra numas luvas, as mais feias da loja e pergunta: pode ser isto? Claro que pode! Já estou farto de compras eu... É o suficiente para pensarmos no que levou a oferecerem-nos algo neste dia. E as chamadas telefónicas? Era neste dia que eu gostava de ser accionista da PT. Bem, liguei para três amigos, já só faltam 157. Depois quero ir comprar tabaco mas a merda da bomba de gasolina está fechada. Vou à Telepizza e lá estão os brasileiros católicos, que ao contrário dos monhés deviam estar em casa a celebrar o Natal. Sim, porque se há alguém que gosta de Deus são os brasileiros. Mas não... estão a trabalhar sempre com um sorriso na cara, ao contrário do português que leva os problemas para o trabalho. Peço uma piza porque estou fartos do perú que ainda nem foi para o forno e porque familia que se preze tem sempre discussões no dia de Natal. Vou para a mesa e como do bacalhau mais deslavado que havia pendurado no Continente. A batata é espanhola e é uma merda, sem esquecer o belo do bróculo. Enfim, comida de pobre para o dia em que já não há nem o ordenado nem o subsidio. Oh filho, fazes o teu bolo de Natal fazes? Hoje não me apetece. Porra! OK, merda, eu faço. Que bosta! Isto sou eu a reclamar porque não gosto que pensem que sou uma pessoa fácil, mas no fundo até tenho bom coração. Passa o jantar, são 23h30 e ninguém quer adiar a entrega dos presentes. Porque não abri-los já? Faltam só 13 minutos. Este é o da avó para mim... Oh vó, foste gastar dinheiro. Obrigado, gostei muito. Mãe, estas meias vão para a arrecadação. A tia precorreu dezenas de quilómetros para ir ao Campera porque lá a roupa é mais barata. E trouxe algo com defeito por ser mais barato ainda. Onde mete aquela cabra o dinheiro que ganha? Ah desculpa, ela não trabalha, é tia... A mãe comprou-me um televisor. Disse ao pai que no Jumbo foi barato , a sorte é que o pai não vai às compras senão descobria que tinha sido o triplo do preço. Quanto ao meu irmão leva sempre com a mesma frase: este ano não te comprei nada porque o primeiro ordenado que recebi na vida foi para te comprar um mega presente de Natal, ainda mo estás a dever. Vou para cama e penso, bem, amanhã vem o perú, tenho de gramar com a minha outra avó, vai chorar, tenho que me fingir sensível. Acordo de manhã e visto algo encarnado, senão não seria Natal. As meias novas para mostrar à avó que gostei (yack) e o perfume que recebi. Escondo-me na casa de banho para admirar o presente que me deu o namorado. Ninguém pode saber! Se perguntarem foi a Susana, é sempre a Susana, a minha amiga imaginária. Vou comer, já não posso ver frutos secos, é figo com noz, é noz com figo, é amêndoa, pinhão e cajú. Que porra! E volto ao ponto de partida, não há tabaco, foda-se. Mãeeee (grito) tenho que ir meter gasóleo. E passa mais um dia de Natal. Agora é acabar o perú antes do dia 1 de Janeiro. Tarefa impossivel numa familia que gosta da mesa cheia para ver."
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